24 de dezembro de 2008

A todos os nómadas, itinerantes, residentes; em particular aos que reservo um lugar especial em mim.
Sem Quadras Especiais, mas também com elas amo-vos o ano inteiro.
Um saboroso Natal

14 de dezembro de 2008

Uma canção antiga, trauteada num cinema...

Para muitas pessoas, o coração é um enclave com auto-determinação dentro do corpo, que, para mais, lhes dá cabo da cabeça. Numas vezes, mais parece um balcão de check-in, em dia de overbooking. Noutras, resigna-se a ter apenas quatro cavidades (que mais parecem uma mina, outrora próspera, que se foi tornando gélida e sombria). O coração das pessoas parece tingir-lhe a razão, levando-as a culpá-lo, sempre que ele se limita, generoso, a pôr uma verdade palpitante em tudo o que sente. Por isso poupando-o a alguns mal-entendidos, gosto de reflectir acerca das pessoas que vivem sozinhas contra a sua vontade. Muitas são pessoas bonitas. Magoadas, certamente, por uma relação. Algumas ansiando encontrar um outro alguém. Quase todas fugindo, sobretudo, das pessoas que pareçam tornar-se um desafio sério para si. Como se o enamoramento fosse uma canção antiga, antes trauteada num cinema.Porque é que as pessoas, quando ficam mais velhas, ficam hablitadas a ficar sozinhas?
A solidão deixa de as assustar?... Pelo contrário. Torna-se mais agreste o rasto de medo que deixa, dentro de cada uma. Mas sendo assim, porque é que as pessoas parecem irredutíveis na conquista de novo começar? Porque mais experiência as torna mais atentas aos pequenos pormenores e requintadas. E pode também levá-las a que fujam de ser abandonadas, sobretudo, se sentirem que essa pessoa pode abrir presianas nos seus olhos ou passar a trazer-se à tiracolo, em todos os seus gestos. (Mas fugir de alguém é a melhor forma de o deixar preso a si, para sempre...).
É claro que, esgrimando contra a sua solidão, muitas pessoas falam dos "mal-acompanhados" que conhecem. Querem com isso dizer - suponho eu - que a monotonia de muitas relações é uma forma das pessoas nos dizerem que não há nada de novo para descobrirem ( que, presumo, é a forma misericordiosa de, nesse purgatório de indiferença, nos segredarem que estão fartas de nós).
Mas, acima de tudo, muitas pessoas, sós ou mal acompanhadas, vivem dominadas pelas suas experiências de abandono para que não sejam abandonadas. Noutras recheiam os gestos fortuitos de alguém para com elas de expectativas tão redentoras (e exoberantes) que permanecem sós acaba por ser uma forma de concluírem que não há ninguém à altura dos seus sonhos. Mas, depois de um abandono, talvez não se fuja de outros abandonos. Guarada-se, como relíquia, o amor-perfeito de que se socorreram, como náufragos, sempre que foram abandonadas.
E que fez com que, entre um amor que se desenha e um sonho que se venera, escolham o segundo. Com a convicção de que, desse modo, mesmo continuando sós, nunca se arriscam a que se desmorone a única luz que lhes deu um sentido para a esperança.

13 de dezembro de 2008

Dezembro - O fim....

Dezembro...

Estamos em Dezembro, o mês final de grandes acontecimentos, tudo acontece, aconteça o que acontecer, nem que chovam picaretas, não é assim que se diz?
Mês de férias, feriados, tolerâncias de ponto para muitas pessoas, regresso dos emigrantes aos seus países de origem, e o mês corre entre dias preguiçosos e festivos.
Cheira a inverno, chove, faz frio, neva, os dias são mais pequenos, mas como diz a minha avó no natal, "saltinho de pardal". É tempo de um chocolate quente, doces da época, lareira, amigos e amizade. É a fase em que se dobra a esquina do tempo no calendário corrente que não pára, assim como nós, e nesta barreira de transição dispomos a fazer de conta que o ritmo cíclico das estações, nos traz uma primavera irremediavelmente de bons augures, que nos possa convir, feito à medida dos nossos desejos, da nossa esperança. Vamos sempre acreditar que o dia de amanhã é melhor, e as pessoas são melhores.
Há a necessidade de dar sentido às coisas, mesmo àquelas que não têm sentido algum, e vestir um clima de festa, alegria de um tempo que aquece o Inverno frio do descontentamento de muitos. A necessidade de navegar, flutuar no tempo como se fôssemos livres e esperássemos das pessoas amenas sequências de acontecimentos de que nos dispomos a fazer uma pausa, um interlúdio do mês de Dezembro.
Mesmo que a seguir venha Janeiro, nublado, frio, sombrio, sem graça, à mistura com os conflitos inevitáveis das proximidades fictícias que sempre geram, é capaz de valer a pena.
Mesmo que Dezembro seja o mês de transição, que prefigura futuros inquietantes, dá a sensação, só porque somos gente, que abraçamos os fins de festa com alegria, na esperança de algo melhor.
Todos os meses são importantes, Dezembro traduz a viragem, a festividade de muitas famílias, daí talvez o possamos considerar o grande mês do calendário.

10 de dezembro de 2008

Amizade

No começo a sombra, depois, em perfis mais claros – a imagem -,
as cores, o aroma, os gesto e a alegria.
Mais tarde, o ritmo e o movimento no dia,
e a luz, e o ar, e a água, e o som e a amizade.
Sorriu.
A amizade escasseia, lá, onde
o olhar não alcança.
A amizade está no coração (que não é de carne),
e pousa, e repousa, e não tem pressa,
nunca tem pressa. E não sai dali.
Sempre, o movimento dos sonhos. Que
têm a cor e o cheiro de cada amizade.
E o rosto da nossa… é o sorriso.

Legenda

Nada garante que tu existas.

Não acredito que tu existas.

Só necessito que tu existas.


David Mouräo Ferreira

6 de dezembro de 2008

Yael Naim - Far Far




Far far, there's this little girl
she was praying for something to happen to her
everyday she writes words and more words
just to speak out the thoughts that keep floating inside
and she's strong when the dreams come cos' they
take her, cover her, they are all over
the reality looks far now, but don't go

how can you stay outside?
there's a beautiful mess inside
how can you stay outside?
there's a beautiful mess inside
oh oh oh oh

far far, there's this little girl
she was praying for something good to happen to her
from time to time there're colors and shapes
dazeling her eyes, tickeling her hands
they invent her a new world with
oil skies and aquarel rivers
but don't you run away already
please don't go oh oh

how can you stay outside?
there's a beautiful mess inside
how an you stay outside?
there's a beautiful mess inside
take a deep breath and dive
there's a beautiful mess inside
how can you stay outside?
There's a beautiful mess
beautiful mess inside

oh beautiful, beautiful

far far there's this little girl
she was praying for something big to happen to her
every night she ears beautiful strange music
it's everywhere there's nowhere to hide
but if it fades she begs
"oh lord don't take it from me, don't take it yourselves"

i guess i'll have to give it birth
to give it birth
i guess, i guess, i guess i have to give it birth
i guess i have to, have to give it birth
there's a beautiful mess inside and it's everywhere

so shake it yourself now deep inside
deeper than you ever dared
deeper than you ever dared
there's a beautiful mess inside
beautiful mess inside

1 de dezembro de 2008

A Noite Passada - Sérgio Godinho





Sergio Godinho - Primeiro Dia

Palavras

Já disse tantas palavras bonitas
que viciam,
palavras atrevidas,
palavras sem sentido,
palavras torpes,
palavras do bem,
do mal,
do céu,
do sol,
do tempo,
da estrada,
da história,
da piada,
da dor,
da morte,
do beijo,
da sorte...

Palavra que vai,
palavra que vem,
palavra que sai,
que fere,
que ferra,
que explica,
que complica,
que diverte,
que mente,
que sente,
que defende...

Palavra que chora,
que obedece,
que fica,
que foge,
que traduz,
que seduz,
que naufraga,
que invade,
que pergunta,
que atormenta....

Palavra que excita,
que inspira,
que acalma,
que faz dormir...

Palavra de amor,
palavra de pressa,
palavra de sede,
sem rede,
palavra com data,
palavra com côr,
palavra com dor,
palavra que planta
que promete
que cumpre...

Palavra que espera
sincera,
terna,
presente.

Palavra marcada,
ensaiada,
programada,
palavra gravada,
testada,
roubada...

Palavra serena com cheiro de flor,
palavra doce com gosto de mel,
palavra que beija, que cura...
Palavras apenas palavras...
Palavras que são flechas,
palavras que são alvo,
palavras que enlouquecem
e que encontram almas para salvar
ou ferir...
E com tantas palavras
sentidas,
tantas não foram ditas...

24 de novembro de 2008

...

"O sexo não é um tempo para falar. De facto é um dos poucos momentos demasiado articulado, extremamente verbal vida, onde é perfeitamente apropriado - se não preferível - calar a boca."
(Miranda Hobbes, Sex and the city)

Esta noite no bar, ele era pura literatura. Era impossível não admirar a sua forma de conjugar as palavras, o modo preciso mas violento irreverente em que irrompiam as suas ideias, a cadência dos pontos sobre os ies, que a essa altura me pareciam flores.
Fomos a um bar notavelmente horrível, mas confiei no meu William Shakespeare de copertin, no meu caustico Manuel Jimenez, para torna-lo poético.
Recostámos e ficou calado. De repente era pura contenção. Não havia mais pontos sobre os ies, nem mais cartas sobre a mesa, nem mais palavras. Já não podia ler-lo. Para mim ficou como que um livro fechado, um enigma cansado e indecifrável.
"O verdadeiro desafio é o silêncio. O vazio que não se pode encher com palavras", disse. Nos disse.
Não sei se me entendeu. Não disse nada.
Como seria o Marquês de Sade na cama?Diria Cortázar algo a uma mulher nua em seus braços depois do capítulo 7 de Rayuela?
Haveriam sofrido Elsa Astete Millán o Maria Kodama alguma vez problemas de índole horizontal? O seria B. o fervor, um labirinto circular, uma catarata de variantes amatórias configuradas, como os seus escritos, numa subtil arquitectura de mesura e desmesura?
Não posso terminar de dizer se a cama é um campo minado de palavras, ou simplesmente um campo minado. Suponho que depende de cada guerra, e mais ainda de cada guerreiro.
A flora e a fauna dão para tudo: estão os que falam, os que te pedem que lhes digas alguma coisa e sem articular palavras se dão a entender, os que avisam, os que passam sem deixar rasto, e esses nomes que ficam escritos num corpo com tinta invisível e indelével.
Talvez o dirty talking é para os mais mentais, donos de cérebros com tanta presença erótica no plano horizontal com no vertical. Ou será que com o tempo todos nós nos livramos e procuramos lugar entre as folhas para qualquer tipo de conversa. Mas de todas as conversas, a de depois é a mais difícil. Ali é quando, às vezes, um se contém em dizer as coisas realmente pornográficas, as palavras deliberadamente obscenas.

19 de novembro de 2008

...A Interpretação

... Não me esqueci das mãos

nem da poesia

ou da cor turquesa...

Só...

Sozinha...

...Dois anjos, sim são dois

dois sussurros...

As mãos

Como são os teus olhos?
Nalguns ventos olhas-te através de mim

Não me esqueci do frio

O amor do sol é vermelho

Janela para a imaginação...
A figuração do céu é tão real

Tudo tão estranho

O Outono aninhou-se na memória... apresentado nas estrelas

Como a música vibra estaticamente

Silenciosa...

...Existem momentos em que gostaria de ver os olhos mais fechados

E é a questão de como se interpreta

Às vezes a figura de estilo

Algumas vezes

Existem momentos em que o sol...

São muitas as vezes em que a lua....
...Dança é uma festa retórica

E vejo o ruído nos olhos e... estou aqui

Não é tão fácil

A fragilidade é um estado de consciência....

Da interpretação ...

E sim
A liberdade repousa em silêncio

Reside em mim

Corpo aberto à fome...

... Olhos desprovidos de luz

Estou a colocar velas no jardim

As palavras são eternos

Canais do verbo, repudiam a fome

Não existem mais sois negros

Flores do céu coroadas

A glória reside no tempo

Não quero mais...

Eu vento

Cerimónia da vida...

Fulgor vital

Derrame de mel no ventre

Hostis e sagrado amor

Movimento real e ficção

E pergunto-me:


Há necessidade de responder?
... ...