30 de maio de 2011

Uma outra vez...

Às vezes utilizo um sistema de desocupar as palavras.
É físico.
Entro nelas.
Interiorizo-lhes o sentido, retiro-lhes o recheio e depois escrevo-as como eram antes de serem escritas.
Só emoções.
E som.
Às vezes utilizo um sistema de desocupar as palavras.
Pego em água e dou-lhe opacidade, ou junto-lhe sal para a pôr no mar, ou ainda lhe ofereço uma gota de cheiro e chamo-lhe perfume.
Ou a esvazio de vez, e torna-se seca.
Às vezes….ficam as palavras
Às vezes….
Às vezes…ficam!

2 de maio de 2011

Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:

Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.

Guardo a tua voz dentro de mim.

E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade

24 de abril de 2011

O momento

O momento,
do momento que se traz cá dentro
como um lume que não se apagou,
como o retrato repentino
da gente que nos ficou no peito,
gaiola em desajeito
de folha e arame improvisado,
como horizonte de mar que se acontece preso ao céu.

E sem preparo
invento, do instante
o tanto ou quanto só,
cheio do que a memória guardou
no rio de dentro,
na margem do forte tambor aluvião.

E de súbito, o momento
do momento que em forma de gente restou
antes ou depois,
do mínimo espaço
do tempo,
do vento vago que se arruma cá dentro,
resto de momento que em mim trago
como brasa dum lume que se apagou.

Dum gesto, um momento
um passo que trago do levante,
que fica,
dentro do tudo o que me basta, agora
e do instante,
agora, do pouco eu
que invento
ou improviso,
de todo meu passo
futuro e passado,
a gasta pedra onde
em sangue,
também sou letra, momento meu
onde me teimo ficar inscrita,
como mínimo espaço do tempo que me divide,
resgate urgente
do pouco,
pouco do mundo, de repente.

E quem diria que
aqui, ali, mais adiante
no peito, no rio breve, na palavra,
dentro do lume que não se apaga
cá dentro, afinal
também há gente?

11 de abril de 2011


"Na minha memória, tão congestionada e no meu coração tão cheio de marcas e poços vocês ocupam um dos lugares mais bonitos".

28 de março de 2011

"Um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo que veio antes e depois."



Walter Benjamin

27 de março de 2011

Pablo Neruda

24 de março de 2011

Dia da Poesia 21-03-2011

O Silêncio


Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,
quando azuis irrompem
os teus olhos
e procuram
nos meus navegação segura,
é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,
pelo silêncio fascinadas.
 
Eugénio de Andrade

24 de dezembro de 2010

Boas Festas

A todos Feliz Natal!!

Os "fornos lentos" cozinham conversas, afectos e sonhos.
Quantos terão, hoje, a capacidade ou a possibilidades de degustar e saborear um bom "forno lento"?
Fica o sonho!

21 de novembro de 2010

Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida



Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
à beira-mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado
por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos… sem ninguém
e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta… dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca do mar ao fundo da rua
assim envelheci…
acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão
(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração, mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)
um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade

 Al Berto

5 de outubro de 2010

O tempo não volta #8

Passam os anos...


Os anos passam, a vida decorre
e nos faz esquecer as ilusões de uma juventude cheia de sonhos,
que fica para trás, inexoráveis esmagadoramente superada,
pela realidade que é a nossa passagem implacável pela vida.
Irremediávelmente relegados na profunda gaveta da memória,
aquelas ilusões de juventude dão lugar ao repouso e tranquilidade
que decorre dos dias, à calma de uma idade mais pausada e madura.
À vezes porém, como num passe de magia inesperada de uma recordação,
uma foto esquecida, palavras escritas na margem de um caderno,
uma música ouvida com nostalgia, mas com o encanto de quem canta,
fazem-nos reviver aqueles anos em que a vida era apenas um
projecto e desejo, que nos despertam no sentir das ilusões e alegria
que enchem os nossos sonhos.... .