Muito trabalho, muita emoção, adrenalina qb, e mais uma excelente organização por parte do Ginásio Clube de Águeda e todos aqueles que connosco colaboraram!
20 de junho de 2011
4 de junho de 2011
Às Vezes...
Docemente, alinho palavras
na entristecida canção de sal e água.
Por vezes, ao seu redor
esvoaçam picos, formas de pássaros
coloridos, alinhavos sob um fogo encantado.
Olho-os na voz do silêncio desfolhado.
Se por vezes sinto em acalmia a brasa
outras, estremeço pelo vazio
gritante que clama a inconsistência,
a lenta perdição da mente
pelo deserto de inconstância, desperto,
que da chama nada entende nem da verdade.
Quisera ser aroma em flor de letras e
gota a gota elaborar a palavra em falta,
quando cada verso de dor e treva
transforma em dúctil manto
essa voz de pranto e mágoa.
Às vezes, vibrante penso
silenciar o remoinho do espaço,
e sorrindo docemente, espalho
no fogo, o sal, a água
na eterna estrada em cascata.
na entristecida canção de sal e água.
Por vezes, ao seu redor
esvoaçam picos, formas de pássaros
coloridos, alinhavos sob um fogo encantado.
Olho-os na voz do silêncio desfolhado.
Se por vezes sinto em acalmia a brasa
outras, estremeço pelo vazio
gritante que clama a inconsistência,
a lenta perdição da mente
pelo deserto de inconstância, desperto,
que da chama nada entende nem da verdade.
Quisera ser aroma em flor de letras e
gota a gota elaborar a palavra em falta,
quando cada verso de dor e treva
transforma em dúctil manto
essa voz de pranto e mágoa.
Às vezes, vibrante penso
silenciar o remoinho do espaço,
e sorrindo docemente, espalho
no fogo, o sal, a água
na eterna estrada em cascata.
Estas Palavras - Miguel Calhaz
Final do Festival "Cantar Abril"
Prémio Zeca Afonso-Melhor canção original-Festival Cantar Abril 2011
Miguel Calhaz-Voz e Contrabaixo
Marco Figueiredo-Piano
Prémio Zeca Afonso-Melhor canção original-Festival Cantar Abril 2011
Miguel Calhaz-Voz e Contrabaixo
Marco Figueiredo-Piano
30 de maio de 2011
Uma outra vez...
Às vezes utilizo um sistema de desocupar as palavras.
É físico.
Entro nelas.
Interiorizo-lhes o sentido, retiro-lhes o recheio e depois escrevo-as como eram antes de serem escritas.
Só emoções.
E som.
Às vezes utilizo um sistema de desocupar as palavras.
Pego em água e dou-lhe opacidade, ou junto-lhe sal para a pôr no mar, ou ainda lhe ofereço uma gota de cheiro e chamo-lhe perfume.
Ou a esvazio de vez, e torna-se seca.
Às vezes….ficam as palavras
Às vezes….
Às vezes…ficam!
É físico.
Entro nelas.
Interiorizo-lhes o sentido, retiro-lhes o recheio e depois escrevo-as como eram antes de serem escritas.
Só emoções.
E som.
Às vezes utilizo um sistema de desocupar as palavras.
Pego em água e dou-lhe opacidade, ou junto-lhe sal para a pôr no mar, ou ainda lhe ofereço uma gota de cheiro e chamo-lhe perfume.
Ou a esvazio de vez, e torna-se seca.
Às vezes….ficam as palavras
Às vezes….
Às vezes…ficam!
2 de maio de 2011
Poema à Mãe
No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...
Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Eugénio de Andrade
eu sei que traí, mãe
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...
Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Eugénio de Andrade
24 de abril de 2011
O momento
O momento,
do momento que se traz cá dentro
como um lume que não se apagou,
como o retrato repentino
da gente que nos ficou no peito,
gaiola em desajeito
de folha e arame improvisado,
como horizonte de mar que se acontece preso ao céu.
E sem preparo
invento, do instante
o tanto ou quanto só,
cheio do que a memória guardou
no rio de dentro,
na margem do forte tambor aluvião.
E de súbito, o momento
do momento que em forma de gente restou
antes ou depois,
do mínimo espaço
do tempo,
do vento vago que se arruma cá dentro,
resto de momento que em mim trago
como brasa dum lume que se apagou.
Dum gesto, um momento
um passo que trago do levante,
que fica,
dentro do tudo o que me basta, agora
e do instante,
agora, do pouco eu
que invento
ou improviso,
de todo meu passo
futuro e passado,
a gasta pedra onde
em sangue,
também sou letra, momento meu
onde me teimo ficar inscrita,
como mínimo espaço do tempo que me divide,
resgate urgente
do pouco,
pouco do mundo, de repente.
E quem diria que
aqui, ali, mais adiante
no peito, no rio breve, na palavra,
dentro do lume que não se apaga
cá dentro, afinal
também há gente?
do momento que se traz cá dentro
como um lume que não se apagou,
como o retrato repentino
da gente que nos ficou no peito,
gaiola em desajeito
de folha e arame improvisado,
como horizonte de mar que se acontece preso ao céu.
E sem preparo
invento, do instante
o tanto ou quanto só,
cheio do que a memória guardou
no rio de dentro,
na margem do forte tambor aluvião.
E de súbito, o momento
do momento que em forma de gente restou
antes ou depois,
do mínimo espaço
do tempo,
do vento vago que se arruma cá dentro,
resto de momento que em mim trago
como brasa dum lume que se apagou.
Dum gesto, um momento
um passo que trago do levante,
que fica,
dentro do tudo o que me basta, agora
e do instante,
agora, do pouco eu
que invento
ou improviso,
de todo meu passo
futuro e passado,
a gasta pedra onde
em sangue,
também sou letra, momento meu
onde me teimo ficar inscrita,
como mínimo espaço do tempo que me divide,
resgate urgente
do pouco,
pouco do mundo, de repente.
E quem diria que
aqui, ali, mais adiante
no peito, no rio breve, na palavra,
dentro do lume que não se apaga
cá dentro, afinal
também há gente?