15 de setembro de 2015

Chove.....

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego…

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece…

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente…

Fernando Pessoa

23 de março de 2014

Mis Rios

Ríos que pasan siempre cambiantes
Tienen la memoria del tiempo
Ellos pasan solamente
Sus caras van lavadas al sol
Siempre en oro y en grana

Ríos que pasan siempre cambiantes
Dejan su memoria en los pueblos
Son nobles pero otros siempre son
Ellos construyen, ellos destruyen
Imperecederas son sus huellas

Ríos que pasan siempre cambiantes
Son cristalinos, osados y rumurosos
En el impulso vital de sus cauces
Tienen la memoria de mil pueblos

Ríos que pasan siempre cambiantes
Llevan el color mismo de la vida
La vida es el tiempo que se abre en flor
Ella es nube, es lluvia y es trueno
Líquido que es sangre del corazón
que hacia la mar camina perdurable.


Mis rios de siempre!!!

24 de dezembro de 2013

....

Vamos a hacer limpieza general
y vamos a tirar todas las cosas
que no nos sirven para nada, esas
cosas que ya no utilizamos, esas
otras que no hacen más que coger polvo,
las que evitamos encontrarnos porque
nos traen los recuerdos más amargos,
las que nos hacen daño, ocupan sitio
o no quisimos nunca tener cerca.
Vamos a hacer limpieza general
o, mejor todavía, una mudanza
que nos permita abandonar las cosas
sin tocarlas siquiera, sin mancharnos,
dejándolas donde han estado siempre;
vamos a irnos nosotros, vida mía,
para empezar a acumular de nuevo.
O vamos a prenderle fuego a todo
y a quedarnos en paz, con esa imagen
de las brasas del mundo ante los ojos

y con el corazón deshabitado.

31 de maio de 2013

Horizonte Nulo

Horizonte nulo

Hay sombras más fuertes que la oscuridad misma.
Sombras que atajan la luz sin unas manos,
que no se dejan mirar, pero que son las tumbas afligidas
y heridas que el corazón contiene:
un horizonte nulo que la traición concibe,
un espacio sin rostro donde en la espalda
un dolor nos clava una infamia,
una daga de furia y de muerte,
la pica que otrora el hombro nos diera
y hoy conjura con rabia y vehemencia.

Y el corazón ya no siente, ya no da la cara.
Son heridas profundas de ira y de saña,
sombras que ciegan cual alobadas miradas,
o de hienas que incrustaron su risa
para atravesarla en la carne y ya no sacarla.
Un horizonte nulo donde se aborda la nada,
donde se entoldan los ojos
por alguien que nos traicionó las manos;
un espacio que no tiene faz ni apariencia,
y se expresa en la oscuridad más sensible del alma.

21 de maio de 2013

Era Uma Vez Um País

ERA UMA VEZ UM PAÍS - Miguel Calhaz



Vencedor do Festival Cantar Abril 2013. Prémio Ary dos Santos



Letra

Era uma vez um país
"Lá num canto desta velha Europa,
era uma vez um país
vivia à beira do mal "prantado",
mas apodrecia na raíz

Reza a história que foi saqueado
mesmo por debaixo do nariz
Triste sina, oh que triste fado,
era uma vez um país

Os mandantes que por lá passavam
eram só ares de "bon vivant"
Viviam à grande e à francesa
como se não houvesse amanhã

Havia quem avisasse o povo
p´ra não dar cavaco a imbecis
Mas caíram na asneira de novo,
era uma vez um país

Esta fábula do imaginário
tão próxima do que é real
Canção de maledicente escárnio
à república do bananal

Que se encontrava em tão mau estado,
andava a gente tão infeliz
E o polvo já tão infiltrado,
era uma vez um país

E lá se vão sucedendo os casos,
grita o povo: "agarra que é ladrão!"
Mas passam belos dias à sombra do loureiro
Enquanto o Duarte lima as grades da prisão

E nunca se esgotam personagens
neste faz de conta que é assim
Raposas com passos de coelho no mato
e até um corta relvas de madeira no jardim

Entre campeões de assalto à vara
e filósofos de pacotilha
Entram nas portas dos submarinos azeiteiros de oliveira às costas
com o ouro da nação p'ra por nas ilhas Cai-mão, cai-pé,
baixa os braços e as calças e a cabeça e o nariz,
aqui finda esta história que não tem final feliz"
(era uma vez um país)

Prémio Ary dos Santos -- Poesia
Tema -- Era uma Vez um País
Autor - Miguel Calhaz

Intérprete -- Miguel Calhaz

31 de dezembro de 2012

Amo o Espaço e o Lugar

António Gedeão

Amo o espaço e o lugar, e as coisas que não falam.
O estar ali, o ser de certo modo,

o saber-se como é, onde é que está e como,
o aguardar sem pressa, e atender-nos
da forma necessária.
Serenas em si mesmas, sempre iguais a si próprias,
esperam as coisas que o desespero as busque.
Abre-se a porta e o próprio ar nos fala.
As cortinas de rede, exactamente aquelas,
a cadeira onde a memória está sentada,
a mesa, o copo, a chávena, o relógio,
o móvel onde alguém permanece encostado
sem volume e sem tempo,
nós próprios, quando os olhos indignados
nas pálpebras se encobrem.
Põe-se a pedra na mão, e a pedra pesa,
pesa connosco, forma um corpo inteiro
Fecha-se a mão, e a mão toma-lhe a forma,
conhece a pedra, entende-lhe o feitio,
sente-a macia ou áspera, e sabe em que lugares.
Abre-se a mão, e a mesma pedra avulta.
           Se fosse o amor dos homens quando se abrisse a mão já lá não estava.



13 de outubro de 2012

Inventário Desordenado de Pequenos Prazeres


Estender a mão todas as manhãs. 
Andar em estradas de terra.
Acariciando a casca de uma árvore.
Escrever com caneta.
As primeiras páginas de um livro.
O cheiro de café que vem de repente e se torna desejo.
Olhar através de uma janela.
O silêncio da noite, quando todos dormem.
Um revolto prato de batatas.
A poltrona favorita, chama em todas as horas do dia. 
"Sente-se, sente-se", disse.
Os desenhos animados em família.
Redescobrir  filmes que  quase tinha esquecido e rir novamente com as mesmas cenas então.
As borboletas no estômago quando a minha equipa entra em campo.
A relva recém-cortada.
Acariciar um cão.
Falar de livros.
Sabendo que a memória é uma memória com partilhada.
Desfrutar dos desenhos aos quadradinhos quando criança. 
Trilhos de emoções que levam a um poema. 
Ter uma tarde livre para se perder, em  café,beijos  e uma tarte chocolate.
O nu feminino, sempre imprevisível e mágico.
A contemplação hipnótica do fogo.
Acordar no meio da noite e ainda três horas para levantar-se.
O travesseiro, que sempre entende.
Ouvir  novamente “Trilhos” e verificar que o tempo não se gastou.
As folhas das árvores.
A água quente no chuveiro nas costas. 
Água gelada e viva do rio nas  mãos.
Que não dói nada.
Abrir um velho livro em traços aleatórios e encontrar rastos perdidos de outras vidas.
Uma carícia no pescoço.
Regressar a casa.

6 de outubro de 2012

1 de outubro de 2012

Contador

Ela sabia demais o que lhe sabia a pouco.
Havia alturas das quais lhe apetecia cair. Nem que fosse num enorme trambolhão. Mas cair de certas alturas podia ser a única solução para deixar de saber de mais sobre aquilo que lhe sabia a pouco.
Ela tinha dias bons. Também tinha dias maus e outros que nem sequer se lembrava de ter vivido e que por isso não deviam ter sido nem bons nem maus. Tinha dias assim. Assim assim.
Tinha muitas gavetas. Entreabertas ou estragadas. Umas que custavam a abrir e outras que nem sequer conseguia fechar. Parecia um móvel daqueles antigos a que chamam contadores. E ela sentia-se assim. Capaz disso. Ou então não. Nem sempre, só às vezes.
De vez em quando sentava-se algures dentro dela e rebuscava nas memórias. Era capaz de sorrir e de vez em quando até já era capaz de se rir de coisas que a tinham feito chorar muito. Outras vezes não.
De vez em quando, quase sem querer, ficava parada a olhar para qualquer coisa que não tinha dito ou para uma coisa qualquer que tinha deixado fora do sítio.
Ela sabia demais o que lhe sabia a pouco.
Queria ser capaz de deixar de se lembrar de muitas coisas e de nunca mais se esquecer de outras tantas. Queria ser capaz de dizer que nunca esperou muito que lhe dessem alguma coisa. Queria que soubesse que o mais importante tinha sido estar ali tanto tempo.
“Contadores”. Podia tentar mexer na palavra. Conta. Dores. Contar as dores. Contar o tempo que passa. A energia que se gasta.
Seria sempre assim. As gavetas seriam sempre pequenas demais para guardar o que se quer e demasiado grandes para descobrir dentro delas o que queremos que deixe de contar.
As coisas todas precisam de muito espaço. Há coisas que não cabem em lado nenhum.
Há coisas assim que crescem cá dentro à medida que vamos ficando mais pequenos diante delas.
Ela sabia que há alturas em que o céu fica demasiado grande e se veste de cores difíceis de explicar.
Apetecia-lhe cair dessas alturas. Deixar-se cair nessas alturas talvez fosse o pretexto que precisava para se levantar.