29 de junho de 2009

Rodrigo Leão - Vida Tão Estranha




Em ‘A Mãe', Rodrigo Leão procura homenagear o mais puro dos amores, com um registo mais "vincadamente melancólico" o músico concebe este trabalho para homenagear as raízes e o mais puro dos amores, explorando em simultâneo, as suas próprias visões do mundo, culminando numa sucessão de melodias que entrelaçam imagens no imaginário do público.

18 de junho de 2009

A Espantosa Realidade das Cousas

A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

Alberto Caeiro



7 de junho de 2009

Do livro...á chuva, passando pelo meu culto...

UM LIVRO
Acabei de ler, é o exercício de lucidez sobre o declínio, físico e mental. E a dignidade com que todos desejamos vivê-la, que aceita a nostalgia risonha, mas não os mergulhos irreflectidos ao virar da esquina. Este livro é uma provocação para os doentes e médicos, trata-se de um livro irónico, que recorre ao humor para embrulhar verdades mais difíceis de engolir de que qualquer comprimido... não resistimos a classificar-nos... nem que seja numa conversa secreta com os nossos "botões".

UMA SÉRIE

CSI, nesta série os argumentistas presenteiam actores e espectadores com a
visão do mais absoluto de onde emerge a crítica feroz, mas não dogmática à sociedade, onde o realismo de análise de factos está presente, num trabalho sério de quem o faz na realidade. Uma excelente série.


UM FILME DE CULTO
Expiação
http://www.youtube.com/watch?v=UasEDe0i-tQ
Aconselho a ver

UMA VOZ

J. Brel, escutar o desespero e a paixão do homem. E até o suor que lhe inundava a testa...





UM ÁLBUM

"Wish You Were Here" dos Pink Floyd.
Algo intimista e nostálgico, depois do sucesso planetário de
"The Dark Side of the Moon"



UM REFÚGIO
A minha vila de eleição, com a aldeia da minha avó a 8 kms,
Monsanto, onde tudo é puro, verdadeiro, onde os cheiros e sabores se misturam, numa tranquilidade inigualável.





UM LEMA

Rir de mim própria sem piedade ou temor. Mantém a vida em perspectiva...








PECADO FAVORITO

Amar os meus amigos, ajudar incondicionalmente, mas com um livro ao alcance do meu equílibrio.


MAIOR DEFEITO

Para além de viver em paz com os meus defeitos, talvez o defeito de não conseguir estar quieta.





UMA DATA




15 de Julho de 1989




OCUPAÇÃO PARA UM DOMINGO DE CHUVA

Sossego da casa, um bom livro, um bom filme, o pijama
uma comida apetitosa e um bom vinho... ver a chuva cair ao som do violino de Mstislav Leopoldovich Rostropovich.




4 de junho de 2009

10. Fragmentos

composto por Bernardo Soares.


"Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados."

3 de junho de 2009

...

Em determinado momento o mundo faz-se monocromático, vira-se de costas para o rio e não tira os olhos da lua.
Os espelhos retrovisores partem com a única neve de Janeiro e o passado desaparece perigosamente para sempre.
As poucas fotos que dão testemunho de algo, existem e são guardadas sob custódia, mas não recorda onde. Perante o vazio se inventa um planetário omoplatas dentro, sei pelo peso sobre as costas.
Tudo é lento, cada passo é meditado, não se pode enganar a metade do caminho, porque o equilíbrio custa mais do que realmente vale.
Entretanto as próprias estrelas "orbitam" sobre a própria cabeça. Não fica mais do que acomodar o que resta. Ensaio mental do que foi e desenha-se um mapa na mão para não esquecer. Mas depois dá vontade de improvisar e o mapa fica submergido em espuma e água, dissipado e invisível.
As fotos de ontem foram o presente de hoje e o futuro não é o até amanhã. Este lugar não é oco do cosmos, não é mais que o set de gravações de um filme de outros.
Nem guionista, nem directora, intérprete como tantas outras, em que não ficam bem os primeiros planos. Intérprete de espera contínua, e como toda a espera leva a uma perda, ficou irreversivelmente a perda.